A cidade de São Caetano do Sul possui o melhor índice de qualidade de vida da Grande São Paulo, enquanto Pirapora do Bom Jesus apresenta o pior desempenho, de acordo com dados da primeira edição do Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), lançado nesta quinta-feira (6) para expor as disparidades entre os 39 municípios que compõem a maior metrópole do país.
Elaborado pela Rede Nossa São Paulo e pelo Instituto Cidades Sustentáveis, o estudo reúne 40 indicadores distribuídos em nove áreas temáticas e mostra que, embora cidades vizinhas compartilhem os mesmos fluxos econômicos e populacionais, elas oferecem condições muito distintas de acesso a serviços públicos e qualidade de vida.
O levantamento revela diferenças em praticamente todos os aspectos analisados, desde saneamento básico e transporte até saúde, educação, segurança pública e habitação. Em alguns casos, moradores de municípios da mesma região metropolitana convivem com realidades separadas por décadas de desenvolvimento social.
Na classificação geral, São Caetano do Sul aparece como o município com melhor desempenho entre os 39 analisados, enquanto Pirapora do Bom Jesus ocupa a última posição. A cidade de São Paulo, apesar de concentrar a maior parte da infraestrutura e da atividade econômica da região, aparece apenas em 16º lugar.
O índice foi construído a partir da soma do desempenho dos municípios nos 40 indicadores avaliados e constitui um ranking dos municípios. Confira:
Os pesquisadores destacam que o desempenho geral não significa que um município apresente bons resultados em todos os indicadores. Mesmo as cidades mais bem colocadas possuem desafios importantes em determinadas áreas.
Saneamento básico ainda é uma das maiores desigualdades
Um dos retratos mais marcantes do levantamento aparece na infraestrutura de saneamento. Enquanto Poá, Santo André e Taboão da Serra possuem atendimento universal de rede de esgoto, Juquitiba registra cobertura de apenas 19,5% da população.
O abastecimento de água também apresenta diferenças significativas. Em onze municípios, toda a população recebe água tratada. Já em São Lourenço da Serra e novamente em Juquitiba, apenas cerca de 49% dos moradores são atendidos pelo serviço.
As disparidades também aparecem na coleta seletiva de resíduos. O serviço alcança toda a população em oito municípios da região metropolitana. Em contrapartida, cidades como Suzano, onde apenas 1,7% dos habitantes possuem coleta seletiva, e São Lourenço da Serra, com 3%, figuram entre os piores resultados.

Expectativa de vida muda conforme o CEP
Na área da saúde, o estudo reúne 14 indicadores, tornando este o tema com maior número de informações analisadas. Entre os dados mais expressivos está a idade média ao morrer.
Em São Caetano do Sul, os moradores vivem, em média, 76 anos. Em Francisco Morato, a média cai para 60 anos. A diferença chega a 16 anos, mesmo dentro da mesma região metropolitana. Segundo os dados, São Caetano e Santo André são os únicos municípios onde a idade média ao morrer supera 70 anos. Já em outras 14 cidades da Grande São Paulo, a população vive, em média, menos de 65 anos.

O levantamento também identificou diferenças na cobertura vacinal. Os melhores índices aparecem em Vargem Grande Paulista (99,8%) e Pirapora do Bom Jesus (97%). Enquanto os menores percentuais foram registrados em Rio Grande da Serra (29%), São Lourenço da Serra (32%) e Jandira (34%). Na maior parte dos municípios analisados, menos de 70% da população-alvo estava imunizada.
Além desses indicadores, o estudo avaliou mortalidade infantil, mortalidade materna, desnutrição infantil e gravidez na adolescência, incluindo recortes raciais.
Educação ainda apresenta gargalos
Na educação, apenas 66,5% dos jovens entre 18 e 19 anos concluíram o ensino médio na Região Metropolitana de São Paulo. Os melhores desempenhos são de Guararema (86%), Juquitiba (79%) e Poá (79%). Já Salesópolis registra o pior resultado, com apenas 52%. Na capital paulista, o índice é de 59,8%, abaixo da média regional.
O indicador evidencia que aproximadamente um em cada três jovens ainda chega ao fim da adolescência sem concluir a educação básica.
Transporte amplia desigualdades sociais
A mobilidade urbana também aparece como um dos principais desafios metropolitanos. O estudo aponta que milhares de trabalhadores de baixa renda gastam mais de uma hora apenas para chegar ao emprego. Em Francisco Morato, 52% das pessoas com renda inferior a meio salário mínimo enfrentam deslocamentos superiores a 60 minutos. Em seguida aparecem Ferraz de Vasconcelos (42%) e São Paulo (37%).
Segundo os pesquisadores, o dado evidencia que a desigualdade não está apenas relacionada à distância física, mas também à distribuição de empregos, infraestrutura de transporte e integração entre os municípios da região metropolitana.
PIB elevado não significa melhor qualidade de vida
Na área econômica, o levantamento indica que a riqueza produzida não necessariamente se traduz em melhores condições de vida para a população. Cajamar possui o maior PIB per capita da Região Metropolitana, chegando a R$ 312.708 por habitante. Na outra ponta está Francisco Morato, com R$ 13.549, valor cerca de 23 vezes menor. Já a cidade de São Paulo apresenta PIB per capita de aproximadamente R$ 93 mil.
Segundo o estudo, municípios que concentram grandes centros logísticos, polos industriais ou empresas de grande porte podem apresentar elevado PIB per capita sem que essa riqueza seja distribuída entre seus moradores ou reduza efetivamente as desigualdades sociais.
Habitação evidencia concentração de vulnerabilidades
O levantamento também mostra grandes diferenças nas condições habitacionais.
Mauá lidera o ranking de moradores vivendo em favelas e comunidades urbanas, com 27,5% da população. Na sequência aparecem Itaquaquecetuba (24,7%) e Diadema (22,3%). Na capital paulista, aproximadamente 15% dos moradores vivem em favelas ou comunidades urbanas. Por outro lado, sete municípios registram percentual igual a zero nesse indicador: Guararema, Juquitiba, Salesópolis, Santa Isabel, São Caetano do Sul, São Lourenço da Serra e Vargem Grande Paulista.
Violência também apresenta forte componente territorial
As diferenças também aparecem nos indicadores de segurança pública. Enquanto Biritiba Mirim e São Lourenço da Serra registraram taxa zero de homicídios no período analisado, Pirapora do Bom Jesus apresentou 16,3 homicídios por 100 mil habitantes.
Além da violência letal, o estudo incorpora indicadores de feminicídio, violência contra a população LGBTQIA+ e desigualdades raciais nas taxas de homicídio, buscando mostrar como diferentes grupos populacionais são impactados pela violência urbana.
Ferramenta busca orientar políticas públicas
Segundo os organizadores, o Mapa da Desigualdade foi desenvolvido para servir como instrumento de planejamento para os governos municipais e estadual. A proposta é permitir que gestores identifiquem prioridades de investimento e fortaleçam ações integradas em áreas que extrapolam os limites administrativos dos municípios, como mobilidade, habitação, saneamento, drenagem urbana, gestão de resíduos, ocupação de áreas de risco e distribuição de empregos.
O estudo também reforça que reduzir as desigualdades metropolitanas exige combinar políticas públicas universais com investimentos direcionados aos territórios que concentram os maiores déficits sociais.
“Há municípios vizinhos, integrados pelos mesmos fluxos econômicos e populacionais, mas com condições muito diferentes de acesso a direitos e serviços públicos. O diagnóstico territorial é fundamental para orientar investimentos, fortalecer a cooperação entre as prefeituras e fazer as políticas públicas chegarem primeiro aos locais onde as vulnerabilidades são mais acentuadas”, afirma Jorge Abrahão, coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo e do Instituto Cidades Sustentáveis.
Os pesquisadores utilizaram bases oficiais como o Censo 2022 do IBGE, DataSUS, Censo Escolar do Inep, Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) e outros bancos de dados públicos, permitindo comparar de forma padronizada a realidade dos 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo.
Fonte: CNN Brasil

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